Família e cuidados coletivos de crianças

É preciso uma aldeia para criar uma criança.

Eu adoro esse provérbio e, cada dia que passa, ele tem feito mais sentido para mim. Olívia está com um ano e meio e, ultimamente, tenho sentido vontade e necessidade de resgatar e reinventar minha vida profissional. Para isso, preciso de tempo e, ainda lutando para mantê-la fora da escolinha até os dois anos (antes eu tinha a convicção de que conseguiria até os 3!), preciso de alternativas para fazer isso acontecer. Além disso, sei que ela tem necessidades cada vez mais fortes de interagir com outras pessoas, especialmente com outras crianças.

A ideia de coletivo de pais é algo que realmente me fascina, mas é um pouco inviável para mim no momento por diversos motivos que não cabem aqui. Sobram as alternativas mais tradicionais para o contexto cultural e social em que vivo, como vizinhança e família. Temos uma vizinha com idade muito parecida com a da Olívia, que é criada pela mãe e pela avó, e seria perfeito poder ter a liberdade de deixar a Olívia lá e receber a vizinha quando fosse preciso ou quando elas quisessem brincar e interagir uma com a outra. Infelizmente, não pela minha parte, isso não é possível, e acredito que, mais do que eu ou que as cuidadoras da pequena ao lado, quem mais perde com isso são as crianças.

Portanto, quem tem tido papel fundamental nesse processo é minha família. Tenho a grande sorte de ser vizinha da minha mãe (e da minha irmã e da minha prima) e de ter meu pai morando a poucos minutos daqui. Então, todos os dias, no fim da tarde, minha mãe chega do trabalho e fica com a Olívia por algum tempo, ou faz sua sopa, ou sai passear com ela quando ela passa o dia todo em casa. Minha prima, enquanto esteve morando aqui do lado, foi meu braço direito e minha companheira, pois eu também, muitas vezes, passo boa parte do dia sem interagir com mais ninguém que não a Olívia. Meu pai foi a grande surpresa para mim, pois tem se mostrado um avô atencioso, preocupado e muito presente. É ele quem me dá carona quando eu preciso ir a algum lugar de carro, me ajuda a arrumar o que estraga aqui em casa, fica com a Olívia enquanto eu tenho algum compromisso ou simplesmente quando quero sair sozinha para espairecer ou fazer um programa a dois com o marido.

Olívia e o vovô

Se todo esse arranjo parece uma maravilha, ele não nasceu assim, mas foi construído por nós. Minha relação com meu pai, por exemplo, antes de a Olívia nascer estava bastante conturbada. Não fazia questão de falar com ele e evitava sair junto, embora ele sempre tivesse sido um ótimo pai da maneira dele. Quando ela nasceu, eu fui obrigada a passar por um processo de análise de toda essa coisa ruim que eu guardava, sozinha, com raiva, com mágoas, até que isso passasse e se transformasse em uma relação que hoje é leve e sem rancores. Se antes eu relutava em atender suas ligações, hoje sou eu quem ligo se ele passa muito tempo sem aparecer, pois sei o quanto ele faz bem para mim e para a minha filha.

Quando vim morar ao lado da minha mãe, cheguei como uma mãe leoa e medrosa de um filhote recém-nascido e, na ansiedade de proteger minha filha das minhas próprias inseguranças, acabei me afastando da minha própria mãe. Essa também é, para mim, uma atividade diária ao compartilhar os cuidados da Olívia com outras pessoas: compreender que o que importa, realmente, é que ela esteja com pessoas que a amam, a respeitam e a cuidam da forma como acham melhor, o que nem sempre é a maneira como eu acredito ser a ideal. Como convivem comigo e tenho a liberdade de dizer o que penso, posso dizer como eu gosto que as coisas sejam, especialmente com relação à alimentação (aí sou crica mesmo!). Mas, de resto, o meu exercício diário é de parar de tentar controlar a maneira como os outros me ajudam a criar minha filha, visto que o mundo é um lugar com uma diversidade incrível de pessoas, com experiências e vivências distintas, e eu não posso de maneira alguma privá-la disso.

Olhando para o todo, posso dizer que sinto um grande (imenso, enorme!) orgulho de ter botado essa guria no mundo, especialmente ao ver o quanto a sua existência estreitou e melhorou meus laços com minha família. Também penso que não sei se conseguiria criar um filho longe do meu pai, da minha mãe, irmã, prima, vó etc., porque não há nada melhor do que ter gente que ama seu filho disposto a dedicar algum tempo para ajudar na sua criação e evolução.

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5 opiniões sobre “Família e cuidados coletivos de crianças

  1. Isso faz parte da nossa evolução como mãe. A teoria cai por terra, e vamos nos ajustando ao que dá certo… e o processo todo é simplesmente delicioso!

  2. Sabe,Ariane, o Filipe vai completar um aninho amanhã e neste tempo tenho também mudado minha relação com algumas pessoas por conta dele. Tenho aprendido, com alguma dor, que cada um tem um jeito especial de cuidar dele e que meu jeito nem sempre é o melhor (exceção da alimentação, que aí também sou crica!) Obrigada por publicar suas experiências, sempre me confortam de alguma maneira! Beijos!

    • Parabéns pro Filipe!!! Essa data é tão importante…aqui começou uma nova fase depois do aniversário de um ano. Enfim, obrigada pelo comentário, é muito bom saber quando as pessoas passam pelas mesmas dificuldades que nós no que diz respeito à maternidade. Assim não fico me sentindo uma estranha no ninho. =)

  3. O que dizer se já disseram tudo,ou quase tudo sobre esta linda fase pela qual passa.Mas há algo sim a dizer:- o dia a dia vai nos ensinando e se há amor, tudo fica mais fácil .Parabens pelo texto!

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