Um vilão chamado apego

Um bebê não existe sozinho; ele existe com sua mãe.

                                                                   Donald Winnicott

 

Se tem algo que eu carrego diariamente para mim é o lema: “Não faça para o outro o que não gostaria que fizessem para você”. O contrário também é válido: fazer pelo outro o que eu gostaria que fizessem para mim, se a vontade fosse manifestada de alguma maneira. Você provavelmente também simpatiza com esse princípio e talvez até o siga. Mas, por algum motivo, ele não vem sendo aplicado quando nos referimos a bebês e crianças.

                Parto normal tornou-se um ato marginalizado, perdendo espaço para cirurgias chamadas cesáreas. Leite materno virou coisa obsoleta, bem como o ato de amamentar (experimente amamentar em público periodicamente e, certamente, em algum momento, vai se sentir desconfortável com olhares ou comentários maldosos).  Já vi por aí algumas dicas de como fazer o bebê dormir sozinho desde os primeiros dias ou meses de vida. E o clássico “não pode dar muito colo senão fica mais acostumado” é algo que toda mãe um dia já ouviu ou irá ouvir.

                Agora pense que você, adulto, foi morar em outra cidade. Não gostaria de ser acolhido e ficar perto de pessoas em quem confia e amigáveis? Claro! Assim como a maioria das pessoas que conheço gostam de dormir acompanhadas, perto de seus companheiros ou sua família. Adultos também precisam sentir-se amparados quando se encontram em momentos de crise ou deprimidos. Deixar qualquer adulto à deriva nessas situações parece maldade, não?

                Mas bebês não. Bebês têm que aprender o quanto antes que não se pode confiar demais em ninguém, nem na própria mãe. Têm que aprender a se virar sozinhos com seus próprios sentimentos e não podem ser amparados ou ter o amor de quem mais confia a qualquer momento (imagina que absurdo!). Vêm ao mundo e precisam, o quanto antes, separar-se daquele corpo que é a única coisa que conhecem e com o qual sabem interagir. Quando passam por crises, são chamados de birrentos, bebês que fazem pirraça.  E depois, quando crescem, cobramos dessas mesmas crianças gentileza, afeto e solidariedade.

                O instinto diz às mães que o bebê deveria ficar juntinho, ter carinho, colo e cama compartilhada. Mas familiares, amigos e pediatras dizem o contrário. E falam sobre tantas terríveis consequências desse tal de apego que as mães acabam cedendo.  Com o coração partido, muitas vezes, sentindo que não era exatamente isso o que queriam, mas cedem. Montam o bercinho em quarto separado, dão leite artificial para o bebê não ficar chamando durante a noite (mal sabem que peito não é só alimento) e deixam o bebê na frente da TV ou no chiqueirinho (que raio de nome é esse?!) enquanto podem andar “livres”.  Assim, ninguém pode chamar seus filhos de “grudentos”, que “não deixam a mãe fazer nada”, “só querem colo”.

                Ter a cria perto de si parece tão natural para outras espécies e até mesmo para o lado oriental do mundo. Mas por aqui, mães que criam filhos com apego são bombardeadas com discursos e exemplos que nada mais fazem senão separar mães de seus filhotes. E desde quando o apego virou crime? Desde quando as mães que optam por esse tipo de criação têm que praticar o apego de maneira escondida ou ficar constantemente se justificando? O que me parece é que todos tentar alertar-nos do mal que estamos fazendo aos nossos filhos, como se fosse algum tipo de abuso.

                Também tive e tenho que lutar contra comentários e palpites de desmame, de não fazer cama compartilhada, de não ficar tanto tempo com a Olívia no colo para não acostumar mal. Mas, por mais piegas que seja, sigo meu coração. E sim, parece certo dar todo o carinho e a atenção de que ela precisa agora para que ela saiba que veio para um mundo onde as pessoas são acolhedores, solidárias, carinhosas. Sinto que, desta maneira, ela vai ser capaz de confiar nas pessoas, pois, quando precisa, é prontamente atendida pela mãe e pelo pai. Que vai ser capaz de amar, pois é amada (e sabe disso). Que vai ser capaz de respeitar, porque por mais que eu não a compreenda plenamente, procuro sempre respeitar seu tempo e seus sentimentos. Que será feliz, pois crescerá em uma família que é afetuosa e sabe demonstrar seu amor por ela.  

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Uma opinião sobre “Um vilão chamado apego

  1. Eu amamentei os meus três filhos cada um mais de dois anos e sempre dormiram comigo até desmamarem . Eles são ótimos filhos 3 engenheiros um deles já é pai e faz a mesma coisa com a filha que agora está 6 meses, abraços

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