Os primeiros mil dias

Eu ainda não conhecia o pediatra José Martins Filho quando tomei a decisão mais fácil e mais difícil da minha vida (sim, absolutamente contraditório): eu iria abdicar do meu trabalho para cuidar da Olívia pelo tempo que fosse necessário. Como já disse antes, isso implicou em algumas consequências, como dinheiro curto, cuidar da casa sozinha enquanto o companheiro dá conta de caçar o mamute e, principalmente, muita, mas muita paciência e dedicação para fornecer à criança os cuidados de que ela precisa. Não faz sentido comparar minha rotina de antes e depois de ser mãe, pois aquela vida não existe mais. É como se eu tivesse renascido com outra missão. Também não é minha intenção analisar o porquê de um grande número de mães querer ou precisar colocar os filhos em berçários e creches: necessidade financeira, vontade de voltar ao trabalho, medo de “viver só para o bebê”.

Porém, sou absolutamente radical: as mulheres que gostariam de obter uma licença prolongada para cuidar de seus filhotes até que estejam prontas para retornar ao mercado de trabalho deveriam ser amparadas. Não digo somente em termos de legislação, de aumento da licença maternidade, que é condição primordial para que o desejo da mãe de ficar em casa se concretize. O amparo social (especialmente o familiar) deve existir para que as consequências dessa escolha sejam suavizadas e tornem o trabalho (sim, trabalho!) de cuidar de um bebê gratificante como deve ser. Vejo muitas mães com os corações absolutamente dilacerados por terem que voltar ao trabalho depois de 4, 5 meses, que largariam tudo, que têm uma situação financeira que permite que os companheiros assumam a posição de provedores sozinhos mas, ainda assim, sofrem pressão da família para voltar ao trabalho. E assim o fazem.

Os primeiros cuidados de uma criança são, ao meu ver, questão de saúde pública. Como diz o pediatra José Martins Filho no vídeo acima, uma criança que recebe afeto, amor e contato nos primeiros anos é um ser que potencialmente vai contribuir positivamente com a sociedade, pois é mentalmente e fisicamente saudável. A primeira infância que é permeada de doenças infecciosas, constantemente medicada, não prejudica somente o bebê. Mães adoecem tanto quanto seus filhos, pois a dor as torna absolutamente vulneráveis. Amamentação interrompida abruptamente e em tempo inadequado, causando danos físicos e psicológicos tanto para o bebê quanto para a mãe. O desejo de mães e pais passarem rapidamente por esta “fase”, para que não tenha que passar tanto tempo cuidando de filhos doentes…e por aí vai.

Não há nenhum heroísmo no ato de abdicar, temporariamente ou não, de uma carreira e, parcialmente, de uma vida social. Mas não acredito que a mulher que volta ao trabalho rapidamente após ter um filho deva ser supervalorizada. O que é valorizado demais vira modelo, exemplo. E o que é exemplo vira lei. Uma lei que preza mais pela mão de obra imediata do que pela saúde e bem-estar de crianças e mulheres, para mim, não serve.

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4 opiniões sobre “Os primeiros mil dias

  1. Concordo e essa semana tomei a decisão tbém de não voltar e ficar com meu pequeno… E não foi fácil, e sabemos que as despesas vão mudar tbém… Mas de fato, se a licença fosse prolongada, como em alguns países da Europa, alguns fatos poderiam mudar, a amamentação ser no tempo ideal, a criança adoecer menos, assim como a mãe, mas… Enquanto isso não vem, o Jeito é fazer alguns sacrifícios profissionais para valorizar a familia. E sei que vai valer a Pena!

  2. Esse é um papel fantástico para o pai contribuir com o sustento da família para que a mãe possa dedicar-se somente à formação inicial dos filhos. Mesmo que a responsabilidade aumente muito e tamanho dos mamutes não pare de crescer. Cada minuto de trabalho passa a valer em dobro e as conquistas profissionais passam a ter um sabor ainda mais especial. Tenho muito orgulho da minha super mamãe tigresa em tempo integral! Te amo Ariane!

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