SOBRE O BOICOTE À AMAMENTAÇÃO

Durante a minha gravidez eu pouco li sobre amamentação. Resolvi que, quando chegasse a hora, eu iria me informar. Mas, dos sonhos que tinha, os da amamentação eram os mais lindos, o que me fazia ter uma vontade tremenda de amamentar. Quando a Olívia nasceu, demorou um pouco para vir para o quarto para mamar (e eu não sabia da importância de o bebê mamar ou ao menos cheirar a mama nos primeiros momentos de vida). Quando veio, teve a pega correta logo de primeira e foi só felicidade. Apesar de eu me considerar muito sortuda por não ter grandes problemas ao amamentar, eu também tive muita sorte de encontrar pessoas e profissionais que me apoiaram no aleitamento e não tentaram boicotar este ato que deveria ser tão natural.

No dia da alta da maternidade (foi em um domingo de manhã, a Olívia tinha nascido na sexta), meu leite ainda não tinha descido e eu comecei a ouvir a barriguinha da Olívia roncar. Quando o pediatra chegou, disse isso para ele e as palavras dele foram: “Não se preocupe, seu leite vai descer. Enquanto isso, ela tem uma reserva suficiente para esperar”. Isso me acalmou. Se ele tivesse dito que iria prescrever um leite artificial ou qualquer outra palavra que não fosse de apoio, a história seria diferente? Sim! Eu estava fragilizada, insegura e confiando completamente nas palavras daquele médico.

Assim como se eu tivesse atendido aos diversos pedidos das enfermeiras para que elas levassem a Olívia ao berçário para eu “descansar” (oi? Acabei de receber o melhor presente da minha vida e você quer que eu o deixe com você???), a Olívia não teria mamado tanto e meu corpo não teria entendido que precisaria produzir aquela determinada quantidade de leite que o bebê estava demandando. Aí entra um parêntese: mulheres que ficam em enfermaria não têm direito a acompanhante durante a noite (só em horários pré-definidos durante o dia). O que quer dizer que aquelas que fazem cesárea, com dores, pontos e sem conseguir se mexer direito, não conseguem cuidar de seus bebês sozinhas, especialmente de noite, e são quase que obrigadas a deixar os bebês no berçário. Acontece que é muito importante que o bebê sugue o quanto ele precisar nas horas e nos dias após o nascimento, para que o leite desça em quantidade suficiente. Quando o bebê vai para o berçário, não mama o quanto quer e precisa. E talvez aí esteja um dos motivos pelos quais vemos tantas mães dizendo que pararam de amamentar porque não tinham leite suficiente.

Mas os grandes vilões dessa história, no meu ponto de vista, são os profissionais da saúde, que deveriam, mais do que qualquer ator envolvido, informar corretamente, auxiliar, apoiar e amparar mães que querem amamentar. Porém, o que eu vejo são enfermeiros, pediatras e demais profissionais da área boicotando a amamentação e prestando desserviço às mães que precisam de ajuda (ou que só precisam que não atrapalhem).

A amamentação, no início, não é tão fácil para muitas mulheres: mastite, empedramento, bico invertido, pega incorreta, sapinho…enfim, uma lista de questões que podem acontecer no meio do percurso e trazer algum desconforto. Porém, muitas das mulheres passam por estes problemas por saber, às vezes intuitivamente, pois não têm muita informação sobre o assunto, que estão no caminho certo e que seu leite é o melhor alimento que pode existir para a sua cria.  Mas, ao chegar ao pediatra, se deparam com uma balança no pedestal que diz que o bebê TEM que engordar 30 g por dia, por exemplo. Se isso não acontecer, você fracassou e tá aqui a receita do leite artificial para o seu bebê não passar fome, coitadinho.  E aí começam a questionar a capacidade de as mulheres amamentarem seus bebês, que é o ponto central de quase todos os discursos contra o aleitamento materno. Quando dão leite artificial para um bebê na maternidade, ou quando um pediatra diz que a criança não está ganhando peso suficiente, o que estão dizendo, na verdade, é: você é incapaz! Isso quase nunca é correto.  Mas, dito da boca de alguém que supostamente está dizendo a verdade baseado em anos de estudo, a mulher fica desacreditada de sua capacidade. Ouvi uma conhecida dizer que, em alguns hospitais no nordeste, a mãe já sai da maternidade com uma lata de leite artificial. É como se fosse um atestado, que diz: você NÃO VAI conseguir, toma aqui a solução.

As mulheres que conseguem passar por todos estes obstáculos não estão totalmente imunes: sofrem, muitas vezes, preconceito por amamentar crianças em lugares públicos, ou amamentar crianças “grandes demais”, licença maternidade de apenas 4 meses, falta de apoio de familiares, amigos e companheiros etc.

Há alguns fatores que explicam, historicamente, este boicote generalizado à amamentação. Mas NADA justifica a perpetuação destes fatores, especialmente entre os profissionais da saúde. Por que é tão difícil fazer algo que é natural de um ser mamífero? Por que há tanta interferência negativa no aleitamento materno, que comprovadamente é o melhor alimento que existe para um bebê e que traz tantos benefícios, que vão muito além de matar a fome? Por que os profissionais da saúde vão insistentemente contra recomendações da Organização Mundial da Saúde, que é da amamentação exclusiva até os 6 meses de idade e, após este período, inserção gradual de alimentos sólidos, mantendo a amamentação até, no mínimo, 2 manos? Além disso, é gratuito…pensando bem, talvez seja este o problema.

 

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2 opiniões sobre “SOBRE O BOICOTE À AMAMENTAÇÃO

  1. Concordo com tudo, passei por isso e acho que o problema é esse mesmo, ser gratuito! Tive dificuldades no começo para amamentar, tive MUITA dor, mas passou e consigo amamentar super bem agora.

    O Mateus não engorda a tal média, mas está bem, com saúde e conseguindo cada vez mais crescer bem a cada consulta, mas… acho que se não fosse minha mãe, eu ficaria bem mais perdida e talvez tivesse cedido pelo medo, e agora vejo a roubada que é escutar todos estes palpites de médicos e enfermeiras, como isso me irrita ainda mais agora!

    Viva a amamentação!

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